Conhecer para entender e entender para incluir.

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Inteligência Artificial

Por favor, Fada Azul, me torne
um menino de verdade!

O filme Inteligência Artificial (I.A.) é ambientado no ano de 2141, época em que nosso planeta é habitado por orgas, seres orgânicos como nós e os demais animais, e mecas, seres mecânicos, como robôs com aparência humana e em forma de brinquedos diversos. Até então os mecas eram produzidos com a finalidade de servir ao humano tal qual os escravos do passado longínquo. No entanto, a Cybertronics Manufaturing, uma empresa de ponta em tecnociência, resolve desenvolver um robô que seja capaz de "amar". Em menos de dois anos David é criado, e um casal de humanos é escolhido para testar a nova invenção. Monica e Henry são escolhidos para serem pais de David por terem um filho na mesma faixa etária que há alguns anos está em estado de criogenia (mantido vivo em estado vegetativo a baixíssimas temperaturas) à espera de que a medicina encontre uma cura para a sua doença.

David

David chega à casa do casal como um filho substituto e, inicialmente, comporta-se de maneira totalmente mecânica, como se não tivesse nenhuma capacidade afetiva. Após um curto período de adaptação, o casal decide ficar com o menino-robô e Monica resolve acionar um código, predeterminado pela Cybertronics, para que David a ame de forma devotada, incondicional e eterna. A partir desse momento, ele se apega totalmente a Monica e passa a chamá-la de mamãe.

Pouco tempo depois, Monica recebe a surpreendente notícia de que seu filho Martin (até então "congelado") está se recuperando e já pode voltar para casa. A essa altura, David já nutre por sua mãe um amor imenso que, aliado a sua forma excessivamente racional de ser e pensar, faz dele um menino ingênuo, obediente, prestativo, sincero e puro. Ele é incapaz de entender as pequenas maldades que seu irmão Martin prativa contra ele, numa clara disputa pela atenção e pelo amor da mãe.

Sem qualquer habilidade no contato social com Martin e seus amigos, David também é mal-interpretado por Henry (pai), que o acusa de tentar matar Monica com uma tesoura, ao vê-lo cortar uma mecha de seu cabelo, e de tentar afogar Martin na piscina do clube. Henry exige, então, que Monica leve David para a empresa que o criou, a Cybertronics, onde ele seria destruído. Monica, com pena do filho mecânico, o abandona em uma floresta na esperança de que consiga se relacionar com outros robôs semelhantes a ele. David, perplexo, interpreta que sua mãe não consegue amá-lo pelo fato de não ser um menino real.

Abandonado, David busca obsessivamente pela Fada Azul da fábula de Pinóquio, na esperança de que ela pudesse transformá-lo em um menino de verdade, só assim poderia realizar o sonho de ser amado e aceito por Monica, que havia lhe contado a história do boneco que se tornou humano.

Inteligência Artificial e o Autismo

David sendo acionado por MonicaDavid apresentava uma série de características que poderiam ser facilmente associadas a uma criança autista: ele tinha grandes dificuldades em partilhar as situações cotidianas com seus pais, não conseguia perceber as atitudes de rejeição de sua mãe, não tinha instinto de autodefesa perante seu irmão Martin, era extremamente racional, rotineiro, franco, ingênuo. Seu pensamento era bastante concreto, a ponto de acreditar cegamente na existência da Fada Azul, sua fala era estereotipada e seu interesse monotemático, especialmente quando seu "amor" foi acionado por sua mãe Monica.

O Sorriso de David e das crianças autistas

A capacidade de comunicação e a de interação social talvez sejam os aspectos mais fundamentais para que tenhamos nos tornado humanos. Os bebês humanos, em comparação com todas as outras espécies, exigem longos períodos de cuidado antes de alcançarem um estado de autonomia, e é durante esse processo de criação que eles aprendem a socializar e a interagir com os outros. Isso ocorre através do desenvolvimento da chamada teoria da mente, que lhes possibilita entender as pessoas com as quais convivem e, assim, poder compartilhar intenções, desejos, afetos e objetos.

No caso específico de David, observamos logo no início do filme a sua total incapacidade de perceber as intencionalidades e as ações de sua mãe. Ele sorri de forma mecânica e chega a causar espanto em seus pais ao produzir um "ataque de riso" durante uma refeição em família. São sorrisos sem finalidade, sem mensagens e sem vontade, uma mera "programação" de um supercomputador que simula atos humanos desprovidos de contextos adequados. David não pede colo, abraços ou beijos, simplesmente segue sua programação de ser uma criança comportada e feita para agradar sua família. No entanto, tudo muda quando sua mãe aciona seu "mecanismo afetivo". David passa a precisar de atenção, da presença e da sensação de ser amado intensamente por sua mãe. Seu sorriso agora é para ela e por ela.

Nossa sociedade e o autismo

Em I.A., David foi "descartado" por seus pais por não mais satisfazer suas expectativas relativas a um filho adequado e funcional dentro do contexto familiar. Mas e na vida real, agora em nossos tempos? O que estamos fazendo com os nossos "diferentes"? Uma criança com autismo não é uma máquina programada e/ou descartável, ela é humana como cada um de nós. Aprender a compreender e a lidar com essa criança é algo que diz respeito ao que há de mais nobre em nossa capacidade de amar e de construir uma sociedade mais generosa para todos.

Não existe uma criança normal escondida por trás do autismo.

Devemos olhar a criança com autismo sob a perspectiva dela, pois somente dessa forma seremos capazes de ajudá-la. Não existe uma criança normal escondida por trás do autismo. O autismo é uma maneira de ser que perpassa toda a vivência com suas percepções, pensamentos, emoções  e sensações. É impossível dissociar a pessoa do autismo.

Para estabelecer uma relação verdadeira com a criança que tem autismo, temos que nos abrir para uma nova forma de entendimento compartilhado, que inclua novos sinais e significações que sejam compreensíveis para ela. E nessa concepção somos nós que temos que aprender uma nova linguagem. É claro que nos comunicar com alguém cuja linguagem não é a nossa é algo bem trabalhoso, por isso estudamos durante anos idiomas diversos para estabelecermos contato com pessoas estrangeiras. Com o autismo se dá algo semelhante, mas com um detalhe bastante peculiar: é uma maneira de ser que vai muito além de uma cultura e sua linguagem. Trata-se de uma existência humana estrangeira em qualquer lugar do mundo. Por isso mesmo, temos que nos despir de todas as certezas do nosso mundinho confortável de conhecimento e permitir que essas crianças nos ensinem um pouco de sua própria linguagem e de seus universos especiais.

Essa viagem precisa ser feita respeitavelmente, sem preconceitos, e com uma mente aberta e receptiva aos novos significados que as relações humanas podem apresentar. Um território diferente, inicialmente laborioso de ser percorrido, mas que reserva inusitadas surpresas. Não podemos esquecer que as crianças com autismo também percorrem essa mesma estrada, só que na direção oposta: passam a vida inteira aprendendo a falar conosco, se disponibilizando a conhecer e a funcionar em nosso território. Nessa via de mão dupla um encontro amoroso e inovador é possível e bilateralmente desejado e recompensador.

Para que floresça o mais que humano em nós

No entanto, para que esse encontro ocorra, cabe a nós, pais, cuidadores, familiares, amigos e profissionais de saúde a valiosa missão de dar o primeiro passo, de pegar a mão da criança com autismo e, com ela, iniciar a longa caminhada que nos levará ao mais humano que existe em nós. Sim, é isso mesmo: ao fim de tudo, constatamos que perdidos estamos nós em achar que perdemos uma criança para o autismo. Na verdade, perdemos uma criança porque a que esperávamos nunca existiu.

David e a Fada AzulCrianças com autismo são seres humanos de "verdade", existem e jamais devem ser um fardo em nossas vidas. O que elas realmente precisam e merecem são famílias e pessoas que a valorizem e as amem por serem exatamente como são. Elas entram em nossas vidas, na maioria da vezes de forma inesperada - nós alienígenas para elas e elas estrangeiras para nós. No entanto, elas têm o dom de persistir e esperar, e assim o fazem: esperam por nós, por nosso momento de consciência mais profunda, no qual entendemos que também existem seres humanos que precisam de "Fadas Azuis". Não para que se tornem crianças de "verdade", mas sim para que possamos escolher se queremos ser pessoas melhores ao abraçarmos esse desafio, que transcende, em muito nossas "misérias individualistas".

Essa é uma aventura que não tem fim, tal como o conhecimento advindo dela, uma ciranda da vida, do amor, ao moldes do criador/criatura, na qual a partir de um determinado ponto, de onde não podemos mais regressar, os papéis se alternam de tal forma que é impossível saber quem é a "Fada Madrinha" de quem. Agora a escolha é toda nossa!

Texto extraído do livro Mundo Singular de Ana Beatriz Barbosa Silva, Mayra Bonifacio Gaiato e Leandro Tadeu Reveles

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